Data Magna do Ceará: conheça 4 personagens cruciais para o movimento abolicionista do estado
- Página atualizada em 24/03/2026
A Emenda Constitucional nº 73, de 1º de dezembro de 2011, aprovada pela Assembleia Legislativa do Ceará (Alece) e sancionada no mesmo mês, instituiu o dia 25 de março como Data Magna do Estado do Ceará. Ela celebra a abolição da escravidão no estado, ocorrida em 25 de março de 1884, quatro anos antes da Lei Áurea, de 13 de maio de 1888.
A cidade de Redenção é central nessa história, sendo o primeiro município a libertar escravizados em 1º de janeiro de 1883. À época, a cidade chamava-se Vila do Acarape, mas mudou de nome após o movimento que libertou todos os seus 116 escravizados. Neste dia, o Tribunal Regional do Trabalho da 7ª Região (TRT-CE), destaca o nome e história de quatro personagens cruciais para o movimento abolicionista do Ceará.
Conheça os abolicionistas cearenses:
Dragão do Mar (1839-1914)
Francisco José do Nascimento (1839–1914), chamado de Chico da Matilde e apelidado de Dragão do Mar, foi uma figura central na luta pela liberdade no Brasil. Homem pardo, jangadeiro e prático, ele liderou o Movimento Abolicionista Cearense, ajudando a tornar o Ceará a primeira província brasileira a extinguir a escravidão.
Seu ato de maior bravura ocorreu em 1881, no Porto de Fortaleza. À frente de uma greve histórica, ele mobilizou jangadeiros para se recusarem a transportar escravizados até os navios que os levariam para outras regiões do país. Com o grito de que "no porto do Ceará não se embarcam mais escravos", o movimento paralisou o tráfico interprovincial e acelerou o fim da abolição na região.
Mária Tomásia (1826 - 1902)
Natural de Sobral e radicada em Fortaleza, Maria Tomásia foi uma das maiores articuladoras da abolição no Ceará. Casada com o abolicionista Francisco de Paula de Oliveira Lima, ela liderou o movimento que garantiu a libertação dos escravizados na província quatro anos antes da Lei Áurea.
Em 1882, Maria Tomásia co-fundou e presidiu a Sociedade das Cearenses Libertadoras, grupo que reunia 22 mulheres de famílias influentes. Já na primeira reunião, o grupo assinou 12 cartas de alforria e, em seguida, convenceu senhores de engenho a libertarem mais 72 pessoas.
A influência da Sociedade era tamanha que obteve apoio financeiro do Imperador Pedro II. Além de organizar reuniões públicas e promover libertações no interior, o grupo publicava manifestos na imprensa local. Maria Tomásia esteve presente na Assembleia Legislativa em 25 de março de 1884, data do ato oficial que tornou o Ceará a primeira província livre do Brasil e impulsionou a campanha abolicionista em todo o país.
José Napoleão (1830–1913)
José Luís Napoleão foi uma liderança fundamental, embora historicamente invisibilizada, do abolicionismo cearense. Nascido escravizado no Icó, ele conquistou a própria liberdade e a de sua mãe através de um trabalho exaustivo como carregador e capataz na "Casa Inglesa", em Fortaleza. Sua força física, moldada pelo transporte de pesadas sacas de algodão, rendeu-lhe o respeito dos companheiros, que o apelidaram em homenagem ao imperador francês.
Diferente de outros líderes, Napoleão era um homem de posses que utilizava sua estabilidade financeira para financiar alforrias de terceiros, chegando a comprometer grande parte de sua renda anual nessas ações. Em 1881, como presidente do Clube dos Libertos, ele foi o estrategista e coautor, ao lado do Dragão do Mar, das históricas greves de jangadeiros que paralisaram o tráfico negreiro no Porto de Fortaleza. Sob sua liderança, o movimento resistiu a tentativas de embarque forçado pela polícia e contou com o apoio de militares abolicionistas, forçando o fechamento definitivo do porto para o comércio interprovincial.
Apesar de seu papel crucial na logística e na mobilização operária, Napoleão frequentemente declinava o protagonismo político. Segundo relatos, sua modéstia o levava a indicar o Dragão do Mar para posições de destaque por considerá-lo mais jovem e instruído para o diálogo com as elites. Ele viveu até 1913 e, seguindo seu desejo de extrema simplicidade, foi sepultado em uma vala comum, deixando um legado de resistência que foi essencial para que o Ceará se tornasse a primeira província livre do Brasil em 1884.
Preta Tia Simoa (sem registros)
Preta Tia Simoa foi uma das figuras mais determinantes e, simultaneamente, silenciadas do abolicionismo brasileiro. Mulher negra e liberta, ela foi a força motriz por trás da organização popular que sustentou a Greve dos Jangadeiros em 1881. Casada com José Luís Napoleão, Simoa atuou onde a política institucional não alcançava: no chão das vilas, nos morros e no cotidiano das comunidades pesqueiras do Mucuripe.
Sua liderança foi estratégica e territorial. Enquanto as sociedades abolicionistas debatiam nos salões, Simoa mobilizava jangadeiros, pescadores e lavadeiras, articulando uma rede de resistência que unia libertos e escravizados. Ela foi a responsável por transformar o descontentamento contra os abusos fiscais e a violência estatal em uma consciência coletiva de liberdade. Sem o trabalho de base realizado por ela, as paralisações no Porto de Fortaleza não teriam tido o suporte popular necessário para resistir à repressão policial.
A coragem de Simoa também representou uma ruptura com as imposições de gênero da época. Ao ocupar o espaço público e liderar homens e mulheres em uma causa política, ela desafiou o confinamento doméstico e o preconceito racial. Sua influência foi tão profunda que até o 15º Batalhão do Exército hesitou em reprimir o movimento, temendo uma rebelião da massa que ela ajudou a organizar. Embora a história oficial tenha negligenciado seus registros de nascimento e morte, o impacto de suas ações culminou na libertação de mais de 30 mil pessoas e na transformação do Ceará na "Terra da Luz" em 1884.













